Sonhos vestindo azul

Costumo chegar ao parque muito cedo e, com isso, tenho a oportunidade de ver algumas coisas que acontecem antes que o sol saia por completo. São esculturas azuis por toda parte na marquise. Acho que elas escolheram aparecer nesse lugar por estar entre o Museu Afro Brasil e o Museu de Arte Moderna. De vez em quando eu as vejo tão perto das portas desses museus que me dá a sensação de elas quererem entrar. Essas esculturas têm vida, cada dia estão diferentes, os nós das suas cordas são outros, os papelões já têm outras logomarcas, as rugas azuis estão distintas, as posições das suas rodinhas não são as mesmas do dia anterior. Talvez, quando o sol se abra por completo, você não as reconheça. Nessa hora elas estarão despidas dos seus mantos azuis, deixando aparecer o que levam por dentro. Chicletes, cocos, balas, chocolates, salgadinhos e isotônicos brilham com os seus papéis metalizados durante o dia, mas nada se compara à magia de vê-las azuis. Algumas dessas esculturas estão nessa marquise há mais de 35 anos. Com o seu interior, ou almas, como eu chamo, já pagaram mensalidades de escolas, ampliação de barracos, parcelas da moto, presentes de natal, batizados, roupas, brinquedos. Por isso, ao ver todo dia de manhã essa exposição na marquise, posso dizer que os sonhos vestem azul. Leo Macias Se todos me ajudarem a compartilhar e divulgar essa iniciativa, vamos conseguir viabilizar essa exposição fotográfica cujo resultado será revertido para esses artistas noturnos que eu só trouxe à luz do dia.

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